Ambientada em Salem, no ano de 1666, essa história é, basicamente, a origem do arquétipo de bruxa que conhecemos hoje. Embora, dentro da própria narrativa, já exista a ideia de bruxaria, aqui vemos esse arquétipo sendo desenvolvido por meio de Abitha, uma jovem questionadora, curiosa, inteligente e muito habilidosa que vive em uma vila de puritanos religiosos. Com todos essas qualidades citadas, é claro que ela rapidamente se torna uma persona non grata e, para que a acusem de bruxaria, não serão necessárias muitas peripécias.
No entanto, a situação se complica após a morte de seu marido. Abitha passa a ser obrigada a pagar a dívida deixada por ele para não perder a casa. Para isso, começa a cultivar milho e outros alimentos a fim de quitar o que deve. Nesse processo de aproximação com a terra e a natureza, ela conhece um demônio da floresta, Samson, que passa a ajudá-la nessa jornada. O mais interessante é que, conforme a amizade entre os dois se fortalece, ambos embarcam também em uma jornada de autodescoberta: um ajuda o outro a entender um pouco mais de si. Essa é uma das maiores belezas da histórias, duas criaturas que estavam perdidas e se encontram na força uma da outra.
Acompanhamos Abitha entendendo o que é magia, alinhando-se à natureza, enquanto elementos bruxescos vão surgindo — a vassoura, as tranças, os rituais, os amuletos — tudo de maneira muito natural e orgânica dentro da narrativa.

Mas essa história não se sustenta apenas nas belezas da relação entre mulher, criatura e natureza. Também vemos a difícil convivência com os puritanos, que não facilitam a vida de Abitha. À medida que o cerco se fecha e ela se torna alvo de acusações de bruxaria, cresce também a crueldade daqueles que se dizem homens de Deus.
Acompanhar o desenrolar de mentiras, acusações e comportamentos desprezíveis por vezes me deixou com muita raiva, a ponto de eu precisar pausar a leitura e retomá-la pouco depois. A forma como Brom descreve essas pessoas e constrói os diálogos desperta facilmente uma indignação profunda. Para mim, foi difícil seguir sem fechar o livro por alguns minutos para respirar e me lembrar de que era apenas uma história (rs).
“Se é uma bruxa que eles querem”, sibilou ela, “então uma bruxa eles terão.”
O que torna o final catártico. Não vou dar spoilers, claro, quero que você tenha sua própria experiência com a leitura. Mas posso dizer que o encerramento é extremamente satisfatório, pois Abitha consegue sua vingança que é um deleite para o leitor. Aliás, foi um dos melhores finais que já li, porque aconteceu tudo o que eu desejava e muito além disso.

Para quem gosta de histórias de bruxas, Slewfoot é um prato cheio. A obra não entrega apenas magia no sentido mais óbvio, como feitiços, símbolos e rituais, mas constrói a magia como um processo de reconexão com a natureza, com o corpo e com a própria identidade. Há momentos sombrios e macabros, mas eles surgem na medida certa, nunca como mero choque, já que servem para tensionar a narrativa e evidenciar a violência moral e física que nasce do medo e do fanatismo.
Ao mesmo tempo, o livro é atravessado por uma força feminina pulsante. A trajetória de Abitha não é apenas de sobrevivência, mas de afirmação de alguém que se recusa a ser silenciada, mesmo quando tudo ao seu redor a empurra para a culpa e para a submissão. Nesse sentido, a crítica ao conservadorismo extremo e à "hipocrisia religiosa" não é panfletária, ela se constrói organicamente, a partir das relações e dos conflitos, mostrando como a fé, quando capturada pelo medo e pelo desejo de controle, pode se tornar instrumento de opressão.
E é justamente aí que a narrativa provoca reflexões potentes sobre o que é fé. O livro nos convida a diferenciar fé de fanatismo, espiritualidade de religião, devoção de dominação. Afinal, o que é crer? É seguir regras cegamente ou reconhecer o sagrado na vida, na natureza e no outro? Slewfoot nos coloca diante dessas perguntas sem oferecer respostas fáceis e talvez seja essa uma de suas maiores forças.
Nota
Autor(a): BromTradução: Vinícius Loureiro
Ano: 2021
Editora: Darkside Books
Páginas: 401
Ano: 2021
Editora: Darkside Books
Páginas: 401


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