O Familiar, de Leigh Bardugo | O que separa um milagre de um feitiço?




Algumas histórias nos transportam para mundos mágicos completamente inventados, enquanto outras usam a realidade para dar vida à magia. O Familiar, de Leigh Bardugo, é exatamente assim. Um romance do gênero de fantasia histórica que usa a Madrid do século XVI e a corte de Filipe II para pavimentar os caminhos de Luzia Cotado, uma criada que precisa esconder tanto seus pequenos milagres (ou, simplesmente, sua magia) quanto a verdade sobre sua ancestralidade. Enquanto circula por um universo de nobres, religiosos, charlatães e homens interessados em usar seus dons, ela tenta sobreviver sem revelar quem realmente é.

Conforme eu lia os primeiros capítulos, as referências históricas começaram a chamar minha atenção. Algumas lembranças das aulas de história na escola começaram a pipocar na mente, mas não foram o suficiente. Então, comecei a pesquisar as menções do romance para entender o contexto escondido nas entrelinhas. 

É claro que dá para ler o livro sem fazer uma pesquisa, pois a autora oferece breves explicações ao leitor. A questão é que sou curiosa por natureza e trouxe para vocês algumas reflexões e descobertas despertadas por essa leitura. 

O limiar entre o real e o fantástico

Quando autores ambientam, nesse período histórico, a trajetória de uma mulher com poderes, a principal ameaça costuma surgir do medo da bruxaria e de tudo o que esse símbolo representava para uma sociedade profundamente católica. A Inquisição, quase sempre, torna-se um dos principais pontos de tensão. 

No caso de O Familiar, essa ameaça é levada a outro nível, já que Luzia precisa esconder não só a sua magia, mas também as raízes desses poderes, ligadas à sua ascendência judaica. Logo nos primeiros capítulos, vemos a personagem praticar o catolicismo, indo à igreja rezar, sempre preocupada em não despertar suspeitas sobre sua origem.

Aqui, Bardugo já nos oferece uma espécie de buraco de fechadura pelo qual podemos observar um pouco para a história real. Após as conversões em massa ocorridas nos séculos XIV e XV e a expulsão dos Judeus da Espanha, em 1492, muitas famílias permaneceram na Espanha, agora, 'convertidas' ao cristianismo. Elas e seus descendentes ficaram conhecidos como conversos ou “cristãos-novos”. 

A conversão não eliminava necessariamente a suspeita. Conversos podiam ser acusados de “judaizar”, ou seja, de manter secretamente práticas judaicas. Este artigo do Museo del Prado mostra como a desconfiança e a estigmatização dos conversos contribuíram para a criação da Inquisição e continuaram a ser representadas culturalmente. 

A língua como memória e magia

O mais interessante é que, ao traçar paralelos entre o mundo real e a história criada pela autora, descobri uma entrevista ao programa Fresh Air, na qual Bardugo explica que alguns membros de sua família deixaram a Espanha, enquanto outros permaneceram e se converteram. Segundo ela, esse ramo desapareceu da história familiar e a criação de Luzia foi uma maneira de imaginá-lo novamente. 

A personagem carrega o medo dessas pessoas que ficaram. Ela esconde costumes familiares e até palavras que podem denunciá-la. Seus milagritos acontecem quando ela pronuncia expressões que sua tia Hualit lhe ensinou, além de outras que simplesmente surgem na mente. 

Na mesma entrevista, a autora explica que utilizou refranes, provérbios e ditados transmitidos entre gerações, para conectar Luzia às comunidades que viviam no exílio. Alguns desses ditados faziam parte da própria memória familiar da autora. 

Durante minha pequena pesquisa, encontrei, no acervo do Centro Virtual Cervantes, algumas explicações sobre o ladino, também chamado de judeu-espanhol, que dá base para esses refranes de Luzia. Trata-se de uma língua historicamente ligada às comunidades sefarditas (descendentes dos antigos judeus da Península Ibérica). 

Após a expulsão, essa língua acompanhou as populações judaicas para diferentes regiões e incorporou elementos como turco, grego e francês. No romance, Luzia reconhece essas misturas ao realizar seus milagritos, embora não saiba muito bem de onde vem esse conhecimento. Nas engrenagens da ficcão, ele se manisfesta como um dom herdado da família. 

A própria autora afirma que os refranes representam essa conexão com “seu povo no exílio”. Assim, a língua não aparece apenas como um instrumento da magia, mas também como uma forma de memória.



Lucrécia de Leon, ecos entre a história e a ficção

No entanto, Luzia não carrega só fragmentos da história familiar de Bardugo. Segundo a autora, a personagem também foi inspirada em Lucrécia de Leon, uma jovem de origem modesta que se tornou conhecida por seus sonhos proféticos no reinado de Filipe II.

Lucrecia teve centenas de sonhos registrados por pessoas próximas. Como algumas de suas profecias eram interpretadas como críticas ao rei e anunciavam desastres para a Espanha, ela acabou presa e processada pela Inquisição.

Vale ressaltar que a Luzia não é uma reprodução exata da trajetória de Lucrecia. A autora optou por uma aproximação temática, ou seja, ambas são mulheres de posição social muito modesta, possuem um poder sobrenatural, atraem a atenção de homens ligados à política, podem ser vistas como um mero instrumento e ficam presas entre a cruz e a espada, tanto podem ser celebradas como portadoras de um dom divido quanto acusadas de heresia. 

É nesse ponto que o romance me ganhou de vez e garantiu minha nota de cinco cafezinhos, além de um lugar entre as melhores leituras de 2026. A autora escancara que sempre existiram pessoas que alegavam ter visões, revelações ou capacidades incomuns. Em O Familiar, o Torneo Secreto transforma essas alegações em espetáculo.

O torneio expõe a tensão e, muitas vezes, a hipocrisia das autoridades religiosas. Ao mesmo tempo que condenavam práticas consideradas heréticas, elas determinavam se as experiências eram divinas, fraudulentas ou demoníacas.

A competição funciona quase como uma espécie de “Jogos Vorazes” da corte. Pessoas influentes, sob a liderança de Antonio Pérez, ex-secretário do rei que realmente existiu e foi uma figura política poderosa, colocam Luzia diante da elite para que ela exiba suas habilidades ao lado de outras pessoas extraordinárias.

A magia cotidiana e inocente de Luzia se baseia em desfazer um pão queimado, multiplicar alimentos (isso te lembra alguém?) ou alterar a matéria, pertence à fantasia criada por Leigh, mas, a discussão sobre como classificar o fenômeno nasce de uma preocupação histórica real. 

Na entrevista ao Fresh Air, Bardugo resume a pergunta central do romance assim: qual é a diferença entre magia e milagre? Para ela, a resposta depende de quem realiza o ato e de quem possui autoridade para nomeá-lo.

O que pertence à fantasia

Agora, saindo da parte 'pé no chão' e pelos traços fantásticos do romance, fiquei especialmente encantada por Guillén de Santángel, servo de Víctor de Paredes. 

Em busca de prestígio na corte e de recuperar as boas graças do rei, Víctor torna-se patrono de Luzia e a inscreve no torneio mortal de milagres criado por Pérez. É nesse contexto que Guillén passa a fazer parte da trajetória da protagonista.

Embora o romance se apoie bastante em elementos históricos e até mesmo os milagritos cotidianos de Luzia pareçam possíveis de uma certa ótica, é Guillén quem nos conduz ao lado mais abertamente mágico da narrativa. Ele é misterioso e magnético. Durante a primeira parte da história, cheguei a imaginar que ele fosse algum tipo de vampiro, pois o modo como ele é apresentado tem um tempero vampiresco. Aos poucos, Bardugo revela as camadas desse personagem, e percebemos que ele é, de fato, um ser mágico, embora de uma natureza diferente. 

Guillén ajuda Luzia a compreender seus poderes e a controlá-los melhor. O romance entre os dois também traz alguma leveza para a narrativa, já que a protagonista passa quase todo o tempo com a faca no pescoço. Essa relação oferece um respiro em meio ao jogo político que movimenta o Torneo Secreto.



Um rápido contexto sobre o Torneo Secreto

O torneio também é pura fantasia. Não há registros históricos de que Antonio Pérez tenha reunido videntes, alquimistas e milagreiros para encontrar alguém capaz de servir a Filipe II. Ainda assim, é importante ressaltar a corte de Filipe II realmente reuniu pessoas ligadas à alquimia, à destilação, à medicina e a diferentes formas de conhecimento experimental. Encontrei uma pesquisa acadêmica que documenta a existência de destiladores reais e atividades alquímicas e medicinais ligadas à corte e ao complexo de El Escorial.

Portanto, era um cenário em que as fronteiras entre experiência científica, crença religiosa, promessa alquímica e fraude podiam residir em uma zona cinzenta. Então, acredito que Bardugo percebeu essa brecha histórica e a transformou em uma competição ficcional entre pessoas dotadas de poderes. No início, o torneio parece apenas uma diversão para uma nobreza entediada. Depois, transforma-se em uma seleção perigosa, na qual os competidores podem ser reconhecidos como milagreiros ou condenados como mensageiros do demônio.

E qual o veredito?

O Familiar é uma história tão envolvente que me fez passar um bom tempo lendo artigos históricos depois de fechar o livro. 

Eu sei que este texto não é uma resenha que vocês têm o costume de ver por aí. Mas, diante de um entrelaçamento tão bem construído entre história e fantasia, percebi que valia a pena compartilhar algumas das descobertas que essa leitura me proporcionou.

Espero que, a partir delas, vocês consigam perceber ainda mais a riqueza da trajetória de Luzia e que também sintam curiosidade para atravessar o limiar entre aquilo que Bardugo encontrou na História e tudo o que decidiu criar a partir dela.

Obrigada a quem leu até aqui!

Nota

5/5 cafés


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